Mais cedo ou mais tarde você vai deparar com algumas dessas historinhas que vagam pela Internet. Vez por outra uma delas "cai" em sua rede, ou melhor, em sua caixa de correio eletrônico.Tais histórias são o formato ciberespacial das lendas urbanas. São relatos que, às vezes, trazem um viés (!) de verdade, um aspecto que as tornam plausíveis ou verossímeis e que chegam a perturbar um espírito mais crédulo, um bom samaritano virtual. Como todas as lendas e narrativas do folclore, as lendas urbanas têm algumas características bem curiosas. Ninguém sabe ao certo como nem onde elas surgiram nem quem foram os personagens originais.
Elas surgiram a partir de um fato cujos participantes são ignorados, ninguém mais se lembra quem foram. As lendas urbanas lembram as histórias dos discos voadores. Sempre alguém conhece alguém, que conhece alguém cujo amigo teve um "avistamento"... Mas a tal pessoa do avistamento mora longe, ficou traumatizada e evita falar do assunto, já morreu... uma coisa dessas.Um aspecto interessante de algumas lendas urbanas é a presença de um quê de humor, de alerta, de terror, de punição ou de algo que cativa uma alma mais caridosa. Com a Internet, os rumores, boatos, lendas e assemelhados ganharam uma extraordinária força de reprodução. O que antes era divulgado boca-a-boca e através de cartas ou fax agora ganhou um veículo muito mais eficiente.
Uma mentira, uma lenda, uma falsa notícia pode ser enviada ou reenviada a uma enorme quantidade de pessoas com uns poucos comandos ou com o pressionar de umas poucas teclas.Uma lenda que antes demorava dias ou meses para alcançar algumas dezenas, talvez centenas de pessoas agora pode alcançar milhares de pessoas quase que instantaneamente.
A lenda do filme em que Jesus e os apóstolos seriam apresentados como homossexuais circulou pela Europa através de cartas e fax por muitos anos até que a Internet apareceu para tornar a divulgação da mentira muito mais rápida. Essa lenda chegou ao Brasil e produziu alguns abaixo-assinados.
Welcome to the real world, you're HIV Positive, Vous venez d'être infecté par le VIH, "Bem vindo ao mundo da AIDS" (sic). Certamente, mensagens em outros idiomas circulam pela rede alertando para um acidente que jamais ocorreu: uma pessoa ser infectada por uma seringa contaminada num cinema, num teatro ou num metrô. Versões dessa lenda asseguram que o fato teria ocorrido em São Paulo, Montreal, Bombaim, Denver, Dallas e Escondido. (Escondido é uma cidade da Califórnia - EUA.)
Na era pré-Internet, as lendas, os rumores e os boatos circulavam boca-a-boca ou via correspondências. Disseminando-se de uma forma ou de outra, essas histórias tinham circulação um tanto restrita ou se espalhavam lentamente. Além disso, naquele tempo, como hoje em dia, correspondências se perdiam, ficavam guardadas em pastas esquecidas.Os contadores de boatos esqueciam algum detalhe e os recontavam à sua maneira acrescentando um ou dois pontos.A função de esquecimento está presente nos seres humanos, pois afinal de contas, não se pode guardar todas as ocorrências do dia-a-dia na memória.
Já a Internet tem a mesma virtude atribuída aos elefantes: uma excelente memória. Eles não esquecem jamais.Na Internet, nada se perde, tudo se arquiva.A Internet tem uma memória permanente pelo menos no que diz respeito às mensagens postadas em listas de discussão. As mensagens enviadas ficam arquivadas enquanto a lista existir. Há listas, criadas ainda na década de oitenta, que se mantêm vivas e com os seus arquivos atualizados.Além disso, há pessoas que possuem o hábito de manter um arquivo com todas as mensagens recebidas e enviadas. Enchem discos rígidos ou CD-ROM e os guardam da mesma forma como havia pessoas, e certamente ainda há, com mania de guardar todo o papel que lhe passa pela frente.Somadas as duas coisas, os arquivos das listas de discussão (e suas cópias de segurança) e mais os arquivos pessoais não seria difícil acreditar que tudo o que circulou pela Internet desde o seu nascimento até os dias de hoje ainda poderia ser recuperado. Inclusive todas as versões das lendas, dos boatos, dos rumores.O que antes era recontado segundo a percepção ou a preferência do contador da história, agora pode ser passado adiante, pode ser encaminhado na sua versão original.
Seguem alguns exemplos:
O sapato
É bem conhecida a história do sujeito que deu uma escapada para fazer um programa com a amante. No dia seguinte, pela manhã, ele, a mulher e a sogra vão a um casamento. Vão de carro. O marido dirige. Lá pelas tantas, ele tem de dar uma freada mais brusca e toma um grande susto: um sapato vermelho (a cor varia segundo o contador da história) aparece ali bem ao lado do pedal do acelerador. "Pronto! Fulaninha esqueceu o sapato dela no carro. O que é que eu faço?" Ele tem de livrar-se da prova fatal: o sapato deve sumir imediatamente. Alguma coisa acontece do outro lado da rua, ele mostra às duas mulheres e aproveita a distração delas para jogar o sapato bem longe. Uff! Aliviado, ele segue em frente. Chegam à igreja, ele estaciona o carro e vai abraçado com a mulher quando percebe a sogra ainda dentro do carro procurando alguma coisa. O final da história fica por sua conta. A Playboy publicadou essa história originalmente.
Correntes
1. Junte uma certa quantidade de anéis da tampa de latas de cerveja da marca Tal e troque-as por um brinde. Garoto paulista juntou 14 mil lacres na esperança de ganhar um computador.
2. Junte algumas centenas ou milhares de selos de uma marca de cigarros e entregue-os no escritório da fábrica. Por conta disso, um deficiente físico vai receber uma cadeira de rodas.
3. Um sujeito encontrou uma mulher muito atraente e os dois foram a um motel. No dia seguinte, ele acordou com um corte devidamente suturado: haviam lhe extraído um rim (ou os dois, conforme a versão). Uma versão diz que ele acordou dentro de uma banheira cheia de gelo.
4. Uma criança estava se divertindo num brinquedo do shopping center aí veio uma cobra venenosa e picou a criança.
5. Uma pessoa amiga de um(a) amigo(a) passeava na areia da praia aí pisou numa agulha infectada com o vírus da AIDS.
Lenda sobre uma lenda? Acredite se quiser.
6. Criança acompanhava a mãe numa loja de roupas bastante conhecida na cidade. De repente, a criança desapareceu. Apesar dos esforços do pessoal da loja, da família e da polícia a criança não foi localizada. Dias ou semanas depois, a criança reapareceu na mesma loja, mas sem um ou os dois rins, conforme a versão.
8. Uma pessoa sentou na poltrona de um conhecido cinema da cidade e sentiu uma picada no traseiro. Quando foi examinar o que ocasionara o transtorno, descobriu uma agulha de seringa com um bilhete dizendo que aquela agulha estava infectada com o vírus da AIDS.
9. Houve uma época que os homens usavam uma carteira grande ou bolsa pequena chamada, não sei por que razão, de capanga. Ao entrar no carro, o dono da capanga costumava colocá-la naquele espaço entre os dois bancos. Esse era, também, o hábito de um amigo de um amigo de não me lembro mais quem. Um dia, ele ia passando de carro por uma rua e viu uma bela jovem na calçada. Os olhares se cruzaram e imediatamente criou-se o clima adequado. Ele parou o carro. Os dois conversaram, ela entrou no carro. Conversaram. Não, naquele dia não. Talvez no dia seguinte. Mas ele poderia deixá-la um pouco mais adiante, perto da casa dela, logo ali na esquina. Chegaram, ela mostrou onde morava, desceu do carro e ele seguiu em frente. Por algum motivo, logo ele procurou a capanga ali onde ela deveria estar: entre os dois bancos. Não estava.Mas que ladra! Levou meu dinheiro, talão de cheques, cartões de crédito. Eu devia ter desconfiado. Foi fácil de mais. Voltou imediatamente, parou na frente da casa dela.A história pode prosseguir com variadas versões. Uma delas, conta que a capanga havia escorregado para baixo do banco e ele só se deu conta disso ao chegar com a jovem na delegacia para apresentar a devida queixa.
Quem se lembra daquela história de uma casal que havia prometido perder a virgindade via Internet? Quer dizer, via Internet não, pois ela não é capaz dessa proeza. A proposta (!) deles era se apresentarem ao vivo, em plena ação, diante de uma webcam (aquela camerazinha que se usa para transmitir imagens via Internet). Eles marcaram dia e hora e a notícia correu o mundo. Foi destaque em jornais, revistas, rádios, televisões e, é claro, na própria Internet. No fim das contas, tudo era uma farsa. O que os protagonistas queriam era aparecer. E apareceram.
Quando tudo foi devidamente esclarecido, veio a confirmação de que a coisa não passava de um golpe publicitário.
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